REVISTA BUSCA 01 / OUT 2004
editorial
Das coisas que amenizam a existência do homem, dos pequenos e grandes vícios da alma e do corpo, dos passatempos diários que usamos para fugir, ou mergulhar de vez na monotonia do cotidiano, pode-se dizer que o mais refinado deles é a arte. Isso já se sabe faz tempo. Dos muitos caminhos que a arte tomou no pós-modernismo, o de maior visibilidade, que figura a estética do agora nas principais metrópoles do planeta, é a arte de subversão. A mais bela forma de expressão humana, hoje, bebe na fonte do proibido, do ilegal. A rua como meio, o muro como veículo, o artista como produtor e emissor de mensagem. A construção do imaginário coletivo de uma cidade.
E na hora de escolher onde intervir, onde deixar uma marca, seria uma preocupação estética ou uma estratégia de mídia. Não se pode esquecer o fator risco, o eterno fascínio humano pelo perigo. Químicas cerebrais que não se compram em qualquer esquina, mas se encontram em qualquer muro, de preferência virgem, intocado. Demarcando territórios.
Comunicação de massa, design, urbanismo, paixão. Um breve relato sobre vida do homem contemporâneo através da arte por ele produzida. Em meio ao lixo da metrópole surgem flores do caos.
segue a busca
alexandre_vanessinha
trampo_matheus grimm
hebert_jesus breve voltará
nem todo peixe morre pela boca
por geraldo tavares
"o graffiti é efêmero, a intervenção na rua é efêmera, nada dura para sempre."
...intervir no urbano de uma forma organizada, pode ser um problema, ou uma solução para aquilo que se questiona. existem inúmeras formas de intervir na rua, algumas "singelas", e outras nem tanto. o bombardeio pode ser considerado a mais violenta dessas formas. terrorismo poético, arte sabotagem, criação-através-da-destruição. comunicação de massa, propaganda e tinta. claro, muita tinta. o que transforma a arte de subversão em algo tão repugnante para a sociedade é o fato dela ferir
um de seus maiores valores, a propriedade privada.
para esta primeira edição, buscaentrevistou um bomber. arte de subversão extremista no paralelo 30.
busca: o que te leva a pintar na rua?
peixe: primeiro de tudo, a adrenalina. a adrenalina que o bombardeio proporciona, pouca coisa na vida te deixa assim. a tinta sempre me encontra na rua, aí não tem como não sair gastando por aí.
busca: tu tá falando que achas a tinta que usas?
peixe: sempre acho na rua a tinta que eu uso. faz tempo que eu não tenho saído, porque estão rolando uns trabalhos e sempre sobra tinta, mas quando tá ruim eu vou atrás.
busca: o que te leva a pintar na rua?
peixe: primeiro de tudo, a adrenalina. a adrenalina que o bombardeio proporciona, pouca coisa na vida te deixa assim. a tinta sempre me encontra na rua, aí não tem como não sair gastando por aí.
busca: tu tá falando que achas a tinta que usas?
peixe: sempre acho na rua a tinta que eu uso. faz tempo que eu não tenho saído, porque estão rolando uns trabalhos e sempre sobra tinta, mas quando tá ruim eu vou atrás.
busca: a pilha é não comprar tinta?
peixe: não, a pilha é fazer do jeito que der. se tu tens uma tinta esmalte e tá afim de sair para a rua pintar, pinta.se tu tens uma tinta óleo e uma latéx, vai, usa uma pra fundo outra pra contorno. se tu tens só um pincel e uma tinta bem aguada, sai. o negócio é fazer do jeito que der, se tu tá com vontade vai e faz. só.
busca: o que tu queres passar com o trabalho que levas para rua?
peixe: primeiro é o meu manifesto de revolta. depois é a vontade de estimular o pessoal a fazer muito e nos lugares mais impróprios e parar de fazer mamãozinho ou açúcar. diversificar mais, acabar com a mesmice. porto alegre já aprendeu o que é graffiti, agora precisa assumir uma identidade.
peixe: não, a pilha é fazer do jeito que der. se tu tens uma tinta esmalte e tá afim de sair para a rua pintar, pinta.se tu tens uma tinta óleo e uma latéx, vai, usa uma pra fundo outra pra contorno. se tu tens só um pincel e uma tinta bem aguada, sai. o negócio é fazer do jeito que der, se tu tá com vontade vai e faz. só.
busca: o que tu queres passar com o trabalho que levas para rua?
peixe: primeiro é o meu manifesto de revolta. depois é a vontade de estimular o pessoal a fazer muito e nos lugares mais impróprios e parar de fazer mamãozinho ou açúcar. diversificar mais, acabar com a mesmice. porto alegre já aprendeu o que é graffiti, agora precisa assumir uma identidade.
busca: fala a tua opinião sobre o momento atual do graffiti em porto alegre.
peixe: tem uma molecada com muita vontade, mas pouca noção. não sei porque essa galera que tá vindo aí não procura se informar, a informação é despejada de forma tão rápida pra cima da gente; internet, revistinha. têm surgindo tantos graffiti novos na rua, só não faz legal quem não quer. eu acho que tá muito fraco ainda, muito desqualificado. tem uma galera que faz um negócio bom de verdade e quando é pra rolar uma parada comercial, o pessoal que não tem idéia do nosso contexto acha que somos um bando de moleques, que é só dar meia dúzia de tintas para sairmos pintando. não entendem que tem uma galera por trás, que tem todo um estudo, toda uma procura pelo conhecimento e tudo mais que faz fluir um bom trabalho.
peixe: tem uma molecada com muita vontade, mas pouca noção. não sei porque essa galera que tá vindo aí não procura se informar, a informação é despejada de forma tão rápida pra cima da gente; internet, revistinha. têm surgindo tantos graffiti novos na rua, só não faz legal quem não quer. eu acho que tá muito fraco ainda, muito desqualificado. tem uma galera que faz um negócio bom de verdade e quando é pra rolar uma parada comercial, o pessoal que não tem idéia do nosso contexto acha que somos um bando de moleques, que é só dar meia dúzia de tintas para sairmos pintando. não entendem que tem uma galera por trás, que tem todo um estudo, toda uma procura pelo conhecimento e tudo mais que faz fluir um bom trabalho.
busca: como tu vês outros tipos de intervenções nas ruas como máscaras estêncil, cartazes e adesivos?
peixe: acho do caralho quem faz uma máscara legal, um desenho legal, uma coisa qualquer. eu não faço máscara porque não tenho a manha de recortar, não tenho paciência. colagem eu até faço um pouco, não me encarno em fazer milhões de produções, de cartazes e tudo mais. eu faço algumas coisinhas, mas é singelo. é um método de intervenção assim como outro qualquer, como chegar com um spray ou um rolo numa parede. quem faz uma colagem tá no nosso contexto, não vai chegar e pedir para colar um cartaz, vai e chega colando e máscara também, chega zoando com a máscara em qualquer lugar.
busca: e quanto ao respeito na rua, quando o atropelar convém?
peixe: isso é uma coisa que eu aprendi com o tempo. quando estou pintando na rua, não chego perguntando pra ninguém "posso pintar a tua parede? posso subir o teu prédio e fazer lá em cima?" não. eu chego e pinto. então, nada era meu, eu simplesmente fui lá e coloquei a minha
peixe: acho do caralho quem faz uma máscara legal, um desenho legal, uma coisa qualquer. eu não faço máscara porque não tenho a manha de recortar, não tenho paciência. colagem eu até faço um pouco, não me encarno em fazer milhões de produções, de cartazes e tudo mais. eu faço algumas coisinhas, mas é singelo. é um método de intervenção assim como outro qualquer, como chegar com um spray ou um rolo numa parede. quem faz uma colagem tá no nosso contexto, não vai chegar e pedir para colar um cartaz, vai e chega colando e máscara também, chega zoando com a máscara em qualquer lugar.
busca: e quanto ao respeito na rua, quando o atropelar convém?
peixe: isso é uma coisa que eu aprendi com o tempo. quando estou pintando na rua, não chego perguntando pra ninguém "posso pintar a tua parede? posso subir o teu prédio e fazer lá em cima?" não. eu chego e pinto. então, nada era meu, eu simplesmente fui lá e coloquei a minha
marquinha, a minha propaganda.se chegar alguém e fizer por cima, paciência, o espaço é de todos. só fico meio de cara se eu não conseguir tirar uma foto, aí eu vou lá e faço outro. só que tem uma galera que se morde, ficam apegados a sei lá o quê. o graffiti é efêmero, a intervenção na rua é efêmera, nada dura para sempre.
busca: como tu vês a arte de subversão no contexto da arte?
peixe: somos muito marginalizados pelo pessoal dito conceitual, pelo artista formado. talvez eles nos subestimem por pensarem que somos uma meia dúzia de moleques fazendo rabisco na rua, que o cara nunca estudou nenhum movimento artístico nem nada. sei lá, acho que falta respeito. a gente é tanto quanto eles, de repente até mais, pois estamos fazendo uma coisa nova. eu acho que tem muito mais gente com potencial artístico pintando na rua do que em galeria. não desmerecendo quem pinta em galeria, tem muita gente boa, bem melhor do que a gente, porque retém mais informação, mas sem grandes méritos.
busca: como tu vês a arte de subversão no contexto da arte?
peixe: somos muito marginalizados pelo pessoal dito conceitual, pelo artista formado. talvez eles nos subestimem por pensarem que somos uma meia dúzia de moleques fazendo rabisco na rua, que o cara nunca estudou nenhum movimento artístico nem nada. sei lá, acho que falta respeito. a gente é tanto quanto eles, de repente até mais, pois estamos fazendo uma coisa nova. eu acho que tem muito mais gente com potencial artístico pintando na rua do que em galeria. não desmerecendo quem pinta em galeria, tem muita gente boa, bem melhor do que a gente, porque retém mais informação, mas sem grandes méritos.
busca: teu trabalho de rua hoje é basicamente o bombardeio. por que tu paraste de fazer as produções?
peixe: quando eu quero fazer um desenho legal, uma coisa bacana, eu pego uma tela, um quadrinho e pinto. além de me satisfazer, tenho a possibilidade de comercializar e tirar uma grana em cima daquilo que eu gosto de fazer, sem ter que entrar numa fila procurando emprego para descolar uma grana. sair na rua para zuar e avacalhar é tudo o que eu tenho feito, e é pelo meu prazer. coisinha mais bonitinha eu pinto em casa.
busca: o que tu acha do pixo reto?
peixe: quando eu quero fazer um desenho legal, uma coisa bacana, eu pego uma tela, um quadrinho e pinto. além de me satisfazer, tenho a possibilidade de comercializar e tirar uma grana em cima daquilo que eu gosto de fazer, sem ter que entrar numa fila procurando emprego para descolar uma grana. sair na rua para zuar e avacalhar é tudo o que eu tenho feito, e é pelo meu prazer. coisinha mais bonitinha eu pinto em casa.
busca: o que tu acha do pixo reto?
peixe: completamente brasileiro, os gringos pagam pau pro pixo reto. tem um pessoal lá fora imitando, fazendo pixo contornado, letra gorda. é só procurar na web que tá tudo lá para o pessoal ver. eu acho do caralho. tem certos lugares que eu prefiro ainda fazer um graffiti, dito assim, um bombardeio, mas tem lugares que só dá para fazer o pixo e largar fora. de certa forma o tag é um pixo. todo mundo já teve vontade de colocar o nome na porta do banheiro daquele bar que tu vai sempre. é igual a um cachorro, a cada poste tem que dar uma mijada; sentiu o cheiro do mijo dos outros e tem que dar a mijadinha nele. tu vês um negócio cheio de tag, tu não te morde para ir ali colocar o teu?
carla barth_kboco
plim_pedra_nina
ruascrew
nas paredes sujas da cidade cega encontraremos o caminho/advogados perambulam semeando o nada/perpetuando idéias do velho mundo/antigamente mencionadas/como verdades fundamentadas no nada/dizem-se líderes da nação/em bases concretas/sugam energia em tempo/força e devoção/maré suja/vem colorida às avessas/tudo dissolvido no nada/a cada página folheada/mais um dedo da moda/contrapartida/mentes de fogo/semeiam idéias de fogo/nesse mar caótico/cidade/desprezai costumes tolos/fazei firme a força una da teia invisível/que cresce em todas as direções/na cidade cega/abrem-se olhos de quem dorme acordado/faz-se da carne suja/idéia limpa/livres de cercas e opressão/abrem-se olhos/força viva/erguem-se mentes/erguem-se vistas/faz da idéia pura/a ponta de lança/que fere a carne crua/desprezai o caule tosco/que cresce pro nada/ onde o vazio é disfarçado de glória/a vitória não vem disfarçada de brilho/não há glória sem o sujar das mãos/a mensagem suja/vem de forma limpa/e tem seu lugar limpo/pago às custas da energia desenfreada/ de operários que pagam caro pra sobreviver/a mensagem pura/ surgirá na suja parede tua/em frente as vistas/de quem vê e não se cala/de quem cala/ mas vê/não existe glória sem sujar as mãos/abrem-se olhos de quem dorme acordado/o caminho nós sabemos/nas paredes da cidade cega/encontraremos
por 9li 01/09/03
por 9li 01/09/03
tinico_bruno 9li
shand_borrão_gripe
geraldo tavares_matheus grimm_flip
?_sissa
com quantos ossos se faz uma casa
por pingarilho
...sobre o que é mundano e o que é efêmero na nossa vida, todos passamos por isso, pessoas funcionando na metrópole, esse é o eixo social. temos um coração que regurgita sentimentos fabricados, seja pelo produto rejuvenecedor mais novo no mercado, seja pela foto mais sexual estampada na traseira de um ônibus. quantas vezes mais você irá se maquiar para que todos os homens num mesmo recinto sintam o cheiro de seu sexo e vejam você como uma futura progenitora e só? e mesmo assim quantos tem noção de como somos governados e a quê somos submetidos para nos comportarmos como ovelhas. passei num domingo qualquer em frente a um café, onde as pessoas pagavam para poderem ficar ali enjauladas. eu mesmo estava a dois metros de um grupo de garotas muito bem maquiadas e sexualmente maravilhosas. o que nos separava era uma pequena grade. a cinqüenta metros dali pequenos macacos também estavam enjaulados para
somos todos macacos somos todos humanos somos todos animais submetidos a estruturas de poder que vemos e negamos, por isso a raiva incondicional pela polícia, ela é o símbolo máximo da repressão urbana, mesmo que ela sirva para nos proteger, ela mesmo não distingue nas ruas quem é o quê, ela ataca por medo, medo de que não exista mais controle. e quem é o quê? nomes, identidades, funções... tudo não passa de um mosaico catalogando nossas atitudes perante os outros, eu não serei o mesmo daqui cinco minutos, estou em movimento puro, fluido. por isso não poderia nem sequer falar em primeira pessoa, não sou um indivíduo em ação, sou um coletivo — uno — pronto para subverter sua realidade. santinhos, eleições, empresas, moral? a realidade é muito mais caótica do que você pensa, chega de símbolos, chega de medo.
hora de despertar. 30/08/04
pingarilho_os gemeos
geraldo tavares_pingarilho
créditos busca 01
editorial e entrevista_geraldo tavares/entrevistado_peixe/capa e diagramação_bruno 9li_geraldo tavares/texto1_bruno 9li/texto2_pingarilho/ilustrações_bruno 9li/revisão de textos_nina moraes/fotos_geraldo tavares*/colaboradores_trampo_gripe_plim_vanessinha_matheus grimm_becors_aranha_pastel_natan_peixão_tristan manco_fred/intervenções_alexandre_vanessinha/trampo_matheus grimm/hebert_?/carla barth_kboco/plim_pedra_nina/ruascrew/tinico_bruno 9li/shand_borrão_gripe/geraldo tavares_matheus grimm_flip/?_sissa/pingarilho_os gemeos/geraldo tavares_pingarilho
*exceto foto "osgemeos" por plim
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