O Inventário da Impermanência
108 emanações do buda rejeitado
Esta série de monotipias nasce do encontro entre a memória afetiva e a filosofia da impermanência. A matriz que dá origem a estas impressões é uma estátua de Buda que pertenceu à minha avó paterna. Ela era uma zelosa guardiã de afetos materiais; uma colecionadora de coisas que carregavam a promessa de um possível uso futuro. No seu olhar, cada objeto guardado continha uma utilidade latente, um valor invisível que o tempo ou a necessidade um dia viriam a resgatar.
Com a sua partida e a consequente dispersão de seus pertences, o mundo prático operou a sua lógica de partilha. Restou o que ninguém quis: um Buda fraturado, com a cabeça colada, destituído de valor comercial. O Buda rejeitado. No entanto, o que a pressa do descarte considerou defeito, o meu olhar acolheu como cicatriz histórica. A cabeça colada não é uma falha, mas a marca física do tempo e da reconstrução.
Para documentar essa história, utilizei um método de impressão analógico e tátil: pressionar a massa de modelar contra a estátua fraturada, aplicar tinta de carimbo e transferir a imagem para o papel. Se fazer um inventário geralmente significa catalogar posses rígidas, permanentes e imutáveis, este projeto propõe o oposto. Ele é o inventário da impermanência (Anicca). Como a massa cede e a tinta falha de formas distintas a cada pressão, o processo técnico mimetiza a própria vida: nada se repete, a forma se dissolve e o peso do apego material transmuta-se na leveza do papel.
Dentre as mais de muitas impressões geradas por esse ritual, selecionei rigorosamente 108 monotipias. No budismo, este número representa a totalidade da existência, o encerramento de um ciclo e a superação das ilusões. Cada uma das imagens expostas funciona como uma emanação diferente desse herói fragmentado. São as várias faces de um mesmo eu que se desdobra na escuridão e na luz da tinta. Ao multiplicar o Buda que foi rejeitado, o projeto realiza um ato de reparação poética, provando que a fratura não foi o fim, mas o início de uma jornada infinita de renascimentos.
Com a sua partida e a consequente dispersão de seus pertences, o mundo prático operou a sua lógica de partilha. Restou o que ninguém quis: um Buda fraturado, com a cabeça colada, destituído de valor comercial. O Buda rejeitado. No entanto, o que a pressa do descarte considerou defeito, o meu olhar acolheu como cicatriz histórica. A cabeça colada não é uma falha, mas a marca física do tempo e da reconstrução.
Para documentar essa história, utilizei um método de impressão analógico e tátil: pressionar a massa de modelar contra a estátua fraturada, aplicar tinta de carimbo e transferir a imagem para o papel. Se fazer um inventário geralmente significa catalogar posses rígidas, permanentes e imutáveis, este projeto propõe o oposto. Ele é o inventário da impermanência (Anicca). Como a massa cede e a tinta falha de formas distintas a cada pressão, o processo técnico mimetiza a própria vida: nada se repete, a forma se dissolve e o peso do apego material transmuta-se na leveza do papel.
Dentre as mais de muitas impressões geradas por esse ritual, selecionei rigorosamente 108 monotipias. No budismo, este número representa a totalidade da existência, o encerramento de um ciclo e a superação das ilusões. Cada uma das imagens expostas funciona como uma emanação diferente desse herói fragmentado. São as várias faces de um mesmo eu que se desdobra na escuridão e na luz da tinta. Ao multiplicar o Buda que foi rejeitado, o projeto realiza um ato de reparação poética, provando que a fratura não foi o fim, mas o início de uma jornada infinita de renascimentos.
Geraldo Tavares, Porto Alegre, 2026
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